segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A situação de abandono dos bairros populares de Salvador e o caso do Nordeste de Amaralina

Foto: Rua do Gás, Vale das Pedrinhas (Nordeste de Amaralina)

A foto acima ilustra apenas uma parte dos problemas que os bairros populares de Salvador estão sofrendo.  Caos e abandono imperam nesses lugares esquecidos pelo poder público, em especial, o poder público municipal. A administração do prefeito ACM Neto já vem fazendo intervenções na cidade há algum tempo, principalmente nas localidades onde habitam as classes médias e altas da cidade. Além das propagandas da prefeitura na TV, outdoors e outros meios, manchetes de jornais periodicamente exibem as cifras exorbitantes em projetos de requalificação urbana, mobilidade e etc (o último foi o projeto de requalificação da orla da Barra, orçado em cerca de 50 milhões!). No entanto, visivelmente vem “esquecendo” dos bairros populares deixando-os a mercê do tempo. Nada novo até aqui, visto a administração Neto, segue a mesma linha do seu falecido avô, voltada para as elites, empresários do ramo imobiliário e de transportes. Além disso, uma administração regada a propagandear a “felicidade do povo baiano” e a “pão e circo”, incluindo, e este é um aspecto novo desse neo-carlismo, a retórica de gestão administrativa baseada na eficiência prática empresarial.

Mas pra quem essa eficiência da gestão empresarial é voltada? A resposta está em todo lugar, basta observar as diferenças entre os bairros considerados de classe média (Iguatemi, Pituba, Barra, Ondina, Campo Grande e outros) e os bairros do miolo e periferia da cidade (Pau da Lima, São Cristovão, Cajazeiras, São Caetano, Fazenda Grande do Retiro, Periperi, Liberdade, Paripe, Alto de Coutos entre outros), além das “ilhas de desigualdade “ localizadas nas áreas mais centrais mas esquecidas pelo poder público (Calabar, Alto das Pombas, Nordeste de Amaralina, Alto de Ondina, etc), onde a grande maioria da população de Salvador reside.  É perceptível até para os olhares menos atentos, a diferença com o tratamento da infra-estrutura urbana, trânsito, lixo, serviços públicos, saneamento, etc. Mas, até aqui, nada de novo também.

No Nordeste de Amaralina, uma dessas “ilhas de desigualdade” cercadas por bairros de classe média por todos os lados, não seria diferente.  Além dos serviços públicos municipais estarem entreguem as moscas, toda a infra-estrutura dependente do poder municipal está em ruínas. Para se ter uma idéia, a infra-estrutura urbana existente do bairro é da década de 70! E, claro, isso pode se generalizar para todos os bairros populares dessa cidade. Em todo o canto se vê ruas esburacadas, asfalto degradado, lixo nas ruas, esgotos a céu aberto. Se em período de chuvas, a cidade fica um caos, no Nordeste de Amaralina esta situação piora dez vezes mais!
Foto: Rua do Gás, Vale das Pedrinhas (Nordeste de Amaralina)

O sistema de drenagem pluvial inexistente junto ao subdimensionamento do sistema condominial de esgotamento sanitário e ao descontrole TOTAL do poder público com o ordenamento do solo, receita para alagamentos e inestimáveis perdas materiais para os moradores. Fato curioso é que o prefeito tenta fazer “maquiagens” no bairro, a última foi uma intervenção onde foi removido um módulo policial desativado para a construção de uma praça no Vale das Pedrinhas. Foi construída uma coisa que pode ser chamada de qualquer outra coisa, menos de praça. Uma aberração urbanística apenas para ter o que propagandear nos seus meios de comunicação e tentar “calar a boca” do povo. Porém, como se pode perceber, esta ação não obteve o objetivo esperado.

Esgotos ao céu aberto nos fazem esquecer, por um momento, que estamos no Brasil (propagandeado país da Copa de 2014). Por um momento chegamos a imaginar que estamos vivendo na África subsaariana, Haiti ou coisa parecida, tamanho é o descaso do poder público com esta questão. A rede de transportes é a pior possível, além de não haver mais espaços para estacionar os ônibus nos finais de linha, ocasionando engarrafamentos terríveis também dentro do bairro. Postos de saúde são “maquiados”, no entanto os serviços fornecidos continuam precários e o trabalho dos funcionários fundamentais para o serviço de saúde, como os Agentes Comunitários de Saúde, continua desvalorizado. Da mesma forma, existe uma coleta de lixo, porém ineficiente e se mostra carente de uma logística adequada e adaptada as condições de topografia e infra-estrutura urbanística do bairro, fortalecendo a evidência de completo descaso com que são tratados os bairros populares neste quesito.

Por fim, estamos diante de um quadro de total abandono e descaso. Acreditamos que esse quadro não irá mudar enquanto não tomarmos uma atitude, nos unir e nos organizar e lutar em prol do objetivo da qualidade de vida e dignidade nos nossos ambientes de vida. A Associação de Moradores do Nordeste de Amaralina assume essa posição perante a administração atual, de cobrar melhorias não apenas para nossa região, mas para todos os bairros populares de Salvador, que sofrem, apesar de suas peculiaridades, problemas iguais aos nossos em diferentes escalas de intensidade.

Publicamos aqui nossa breve reflexão acerca dos problemas mais visíveis do bairro e seguimos na luta em prol dos interesses dos moradores da região.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Etnografia do “rolezinho

A AMNA reproduz o texto de Carta Capital por achar uma interessante análise sobre os "rolezinhos", assunto que está causando diversos debates atualmente.

Lembrando que haverá um grande "rolezinho" aqui em Salvador no dia 1º de fevereiro, para mais informações basta ir na página do evento no facebook.

Segue o texto abaixo:

O ato de ir ao shopping é político: porque esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços que a sociedade lhes nega dia a dia
por Rosana Pinheiro-Machado — publicado 15/01/2014 08:59, última modificação 15/01/2014 10:54
Rosana Pinheiro-Machado
Em 2009, eu e minha colega e amiga, Lucia Scalco, começamos a estudar o fenômeno dos bondes de marca. Como? A gente reunia a rapaziada, descíamos o morro e íamos juntos dar um rolezinho pelo shopping – o lugar preferido desses jovens da periferia de Porto Alegre. Eles nos mostravam as marcas e lojas preferidas. Contavam como faziam de tudo para adquirir esses bens (descrevemos todas as possibilidades em nossos papers). Havia um prazer e empoderamento nesse ato de descer até o shopping. Eles não queriam assustar, porque nem imaginavam que a discriminação fosse tão grande que eles pudessem assustar. Muito pelo contrário: eles faziam um ritual de se vestir, de usar as melhores marcas e estar digno a transitar pelo shopping.
Uma vez um menino disse que usava as melhores roupas e marcas para ir ao shopping para ser visto como gente. Ou seja, a roupa tentava resolver uma profunda tensão da visibilidade de sua existência. Mas, noutro canto, os donos da loja se assustavam e cuidavam para ver se eles não roubavam nada. Um funcionário disse à Lucia a mais honesta frase de todas (uma honestidade que corta a alma): “não adianta eles se vestirem com marca e virem pagar com dinheiro. Pobre só usa dinheiro vivo. Eles chegam aqui e a gente na hora vê que é pobre”. Eles, no entanto, acreditavam que eram os mais adorados e empoderados clientes das lojas.
Um funcionário da Nike uma vez declarou para a pesquisa: “nós nos envergonhamos desse fenômeno de apropriação da nossa marca por esses marginais”. Mas eles nos diziam: “as marcas deveriam nos pagar para fazer propaganda, porque nos as amamos. Sem marca, você é um lixo”. Quando mostrei o Funk dos Bens Materiais em aula, uma aluna de camadas altas comentou: “quando a gente vê a figura toda montada, marca estampada, já vê que é negão favelado”. Infelizmente não me surpreendeu o fato de toda a aula ter caído na risada. Esse mesmo tipo de pessoa é aquela que ainda diz que é um absurdo comprar televisão, “pobre deveria alimentar a prole” e ponto final. No programa Papai Noel dos Correios, que eu e Lúcia analisamos, uma menina desafiava o seu destino: “kirido papai noel: eu me comportei, eu passei de ano, eu cuido da minha vó, meu pai sumiu de casa. Eu só quero uma calça da Adidas!”. Mas vocês podem concluir que cartas como essas são relegadas por meio de uma moralidade escrota: todos os pedidos de meninas e meninos de roupas de marca eram vistos como um desaforo. Que absurdo! Afinal, pobre deve pedir material escolar e bicicleta!
Tenho ficado quieta nesse caso do “rolezinho” porque este talvez seja o assunto que mais seja caro à minha sensibilidade acadêmica e política. Esse tema é justamente o que me faz me afastar de uma certa antropologia vulgar com suas interpretações do tipo “que lindo essas pessoas se apropriam das marcas e dão novos significados e agência e bla blá blá prá boi dormir”. Mas também é este tema que me aproxima ao que a antropologia tem de melhor: ouvir as pessoas. Não há uma grande diferença do “rolezinho” organizado e ritualizado das idas aos shoppings mais ordinárias (ainda que a ida ao shopping pelas classes populares nunca tenha sido um ato ordinário), mas vejo uma continuidade que culmina num fenômeno político que nos revela o óbvio: a segregação de classes brasileiras que grita e sangra. O ato de ir ao shopping é um ato político: porque esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços que a sociedade lhes nega dia a dia. Quando eu vejo aquele medo das camadas médias, lembro daquelas pessoas que se referiram “aos negões favelados”. E há certa ironia nisso. Há contestação política nesse evento, mas também há camadas muito mais profundas por trás disso.
Estou acompanhando os “rolezinhos” e sinto certo prazer em ver aquela apropriação. Mas entre apropriação e resistência há um abismo significativo. Adorar os símbolos de poder – no caso, as marcas – dificilmente remete à ideia de resistência que tanta gente procura encontrar nesse ato. O tema é complexo, não apenas porque desvela a segregação de classe brasileira, mas porque descortina a tensão da desigualdade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, entre o Norte e o Sul. E enquanto esses símbolos globais forem venerados entre os mais fracos, a liberdade nunca será plena e a pior das dependências será eterna: a ideológica. Por isso, para entender a relação que as periferias globais têm com as marcas e os shoppings, é preciso voltar para os estudos colonialistas e pós-colonialistas.
A apropriação de espaços símbolos hegemônicos, desde Mitchell até Newell, passando por Bhabha, Rouch e Ferguson, nos mostra uma permanente tensão na apropriação que tenta resolver a brutal violência que esta por trás desse ato. O meu lado otimista não nega o que esses jovens nos disseram: do prazer que sentem em se vestir bem e circular pelo shopping para SEREM VISTOS. Meu lado pessimista tende a concordar com Ferguson de que há menos subversão política e mais um apelo desesperador para pertencer à ordem global. É preciso entender o “rolezinho” dentro de uma perceptiva do Sul Global de séculos de violência praticada na tentativa de produzir corpos padronizados, desejáveis e disciplinados.
O pobre no shopping repete a mimeses de Bhabha. A classe média disciplinada vê os jovens vestindo as marcas do mercado hegemônico para a qual ela serve. A classe média vê os sujeitos vestindo as mesmas marcas que ela veste (ou ainda mais caras), mas não se reconhece nos jovens cujos corpos parecem precisar ser domados. A classe média não se reconhece no Outro e sente um distúrbio profundo e perturbador por isso. Não adianta não gostar de ver a periferia no shopping. Se há poesia da política do “rolezinho” é que ela é um ato fruto da violência estrutural (aquela que é fruto da negação dos direitos humanos e fundamentais): ela bate e volta. Toda essa violência cotidiana produzida em deboches e recusa do Outro e, claro também por meio de cacetes da polícia, voltará a assombrar quando menos se esperar.
Rosana Pinheiro-Machado é cientista social e antropóloga. Professora de Antropologia do Desenvolvimento da Universidade de Oxford.
** Texto publicado originalmente em 30 de dezembro de 2012

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Denúncia do genocídio revelou face mais violenta do racismo

Anualmente morrem 139% mais negros do que brancos na faixa dos 15 a 24 anos
10/01/2014
Daniele Silveira
de São Paulo (SP)
Enquanto as pautas relacionadas às ações afirmativas caminham a passos lentos, a violência contra jovens negros continua em alta e com respostas tímidas do Estado. A reivindicação pela desmilitarização da polícia ganhou força nas ações do movimento negro este ano e está entre as principais exigências das organizações que atuam na periferia.
As vítimas de homicídios no Brasil apresentam um perfil em comum. Segundo dados do Ministério da Saúde, 53% são jovens. Desses, mais de 75% são negros. A situação é confirmada pelo Mapa da Violência 2012. O estudo indica que entre 2001 e 2010 o número de vítimas brancas, de 15 a 24 anos, caiu 27,5%, enquanto o índice de negros assassinados aumentou 23,4%. Anualmente morrem 139% mais negros do que brancos na faixa dos 15 a 24 anos.
Débora Maria, coordenadora do movimento Mães de Maio, que organiza familiares de jovens mortos por policiais, denuncia a falta de políticas públicas para a juventude negra e pobre. Em vez de direitos sociais, ela aponta o fortalecimento da violência por parte do Estado.
“A gente vê que entra ano e saí ano e existe uma camuflagem, mas uma política verdadeiramente de enfrentamento [à violência], a perspectiva de vida para juventude está difícil. A política que o nosso governo oferece para a juventude é encarceramento em massa e extermínio por parte das instituições dos policiais. Então, o que a gente vê é um número crescente por parte do extermínio e sem uma punição severa aos algozes dos nossos filhos.”
Estimativas indicam que apenas 3% dos casos em que há morte em confronto com a polícia são investigados no país.
“Autos de resistência”
O fim dos “autos de resistência” é apresentado como reivindicação paralela à desmilitarização. Os movimentos pressionam o Congresso Nacional pela aprovação do Projeto de Lei (PL) 4471/ 12, que acaba com esse tipo de ocorrência e torna obrigatória a investigação dos casos em que há suposto confronto com policiais.
O programa Juventude Viva, lançado pelo governo federal em setembro de 2012, para fazer o enfrentamento da violência contra a juventude negra no país ainda não deu respostas aos movimentos.
Débora, que teve seu filho morto na Baixada Santista por policiais durante os chamados Crimes de Maio de 2006, tem receio de que o projeto seja usado apenas como uma política “oportunista”. Para o enfrentamento, de fato, do genocídio da população negra na periferia, ela destaca a necessidade da implementação de medidas que dêem condições de vida a essa população.
“Nós somos sequestrados na parte da educação e o caminho para um Brasil sem violência começa pela Educação. Os nossos governantes nos aterrorizam não dando educação para os nossos filhos. Não há educação de qualidade para as pessoas poderem discutir e terem conhecimento dos seus direitos; só os deveres. E uma moradia digna, sem a qual vários são jogados para dentro das periferias.
É o caminho de todos nós com falta de uma moradia digna e uma saúde de qualidade. E não deixar para trás a segurança, que, para nós, é insegurança com a qual ele [o Estado] nos oferece.” Nos chamados Crimes de Maio de 2006, forças de segurança executaram mais de 500 pessoas no intervalo de oito dias (12 a 20 de maio). As ações, amplamente questionadas, ocorreram após atentados a viaturas, bancos, delegacias e órgãos públicos promovidos pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).
A maioria dos casos foi registrada como resistência seguida de morte, mas inúmeros relatos denunciam ações de grupos de extermínio formados por policiais. Relatórios produzidos por organizações de defesa dos Direitos Humanos apontam sinais de execução, como tiros na cabeça e vítimas baleadas pelas costas.
Para 2014, Débora adianta que a luta contra o racismo e em defesa da população negra continua. “Queremos avançar, não queremos ser blindadas, não queremos ser perseguidas. Não admitimos mais esse extermínio velado no nosso país produzido por quem deveria nos dar proteção. Acreditamos que em 2014 os nossos políticos não passarão. A gente quer a Reforma Política porque esses que estão aí não oferecem uma perspectiva de vida nem para os nossos filhos, nem para toda a sociedade.”
Foto: Cau Guebo/Folhapress