terça-feira, 11 de novembro de 2014

Em cinco anos, polícia brasileira mata mais do que os EUA em 30 anos

Latuff
Os dados fazem parte do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que registrou 11.197 homicídios cometidos por policiais no país; Enquanto isso, a polícia estadunidense registrou 11.090 em 30 anos
10/11/2014
Da Redação
Recente levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) que compõe o Anuário Brasileiro de Segurança Pública revela que, em cinco anos, a polícia brasileira levou a óbito ao menos 11.197 pessoas, mais do que a polícia estadunidense ao longo de 30 anos (11.090 pessoas).
De acordo com o relatório, a tropa mais letal está no Rio de Janeiro, seguido por São Paulo e pela Bahia. Nestes cinco anos, só em 2012 o Rio ficou em segundo lugar, perdendo para São Paulo, onde foram registradas 583 mortes contra 419 registradas pela polícia carioca.
O número de policiais mortos também aumentou de 2012 para 2013 passando de 447 para 490. A média nacional é de 1,34 policial assassinado por dia. Desde 2009, 1.170 agentes foram mortos e a maioria dos casos aconteceu quando o profissional não estava em serviço. O estado do Rio de Janeiro é o que possui o maior número de policiais assassinados fora de serviço, com 104, seguido de São Paulo, com 90, e Pará, com 51.
A maioria dos Estados brasileiros não tinham, até pouco tempo, controle das mortes praticadas por policiais em serviço. Apenas 11 das 27 unidades federativas apresentaram a contabilidade solicitada pelos pesquisadores do Fórum.
Pela primeira vez o Anuário inclui também dados sobre os custos da violência. Em 2013, estes custos chegaram a R$ 258 bilhões, o que equivale a 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB) produzido pelo país. A maior parte dos gastos refere-se à perda de capital humano.
“Jeitinho”
Outro levantamento presente no Anuário e feito pela Fundação Getúlio Vargas em oito estados brasileiros, revela que 57% dos entrevistados acreditam ser possível desobedecer as leis e 81% dizem que é sempre possível “dar um jeitinho” para não cumpri-las.
Algumas análises dizem que esses dados são fortes sinais de que a população convive diariamente com a sensação de impunidade. É em Brasília que está a maior parte das pessoas que acham que é possível “dar um jeitinho”.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

"A Bahia está mergulhada num mar de sangue"

"A Bahia está mergulhada num mar de sangue"

Lena Azevedo
Nesta entrevista concedida ao blog Negro Belchior, da revista Carta Capital e ao jornal Brasil de Fato, Hamilton denuncia as perseguições sofridas por adotar uma postura intransigente no combate à violência policial
25/09/2014
Por Paula Farias, Jorge Américo e Douglas Belchior
De São Paulo (SP)
Em entrevista exclusiva, Hamilton Borges comenta as perseguições sofridas após a realização da II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro. Reação contra o racismo e a violência estatal virou incômodo para o Estado.
Desde o dia 22 de agosto de 2014 ficou mais difícil ao Estado brasileiro esconder os mortos e encarcerados que antes não passavam de números para as organizações de direitos humanos e para os institutos de pesquisas. Esta é a avaliação de Hamilton Borges, um dos organizadores da II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro, que colocou mais de 60 mil pessoas nas ruas para denunciar o racismo e a violência estatal que fazem milhares de vítimas todos os anos.
Nesta entrevista concedida ao blog Negro Belchior, da revista Carta Capital e ao jornal Brasil de Fato, Hamilton denuncia as perseguições sofridas por adotar uma postura intransigente no combate à violência policial. Ele se orgulha de ter crescido no Curuzu, em Salvador (BA), “o bairro mais negro do mundo depois do Harlem”, em Nova Iorque. A inspiração para a luta veio da convivência com mulheres que cuidavam da família.
Hamilton não tem dúvidas de que “o genocídio é um fato no Brasil, um crime de lesa humanidade praticado contra um povo que construiu essa nação e vive cercado de morte, terror estatal e encarceramento em massa”. O militante negro não tem receio em anunciar que “a Bahia está mergulhada num mar de sangue”. Hamilton revela não ter se surpreendido com as ameaças, pois “essa performance radical é muito para a cabeça dos policiais acostumados a nos chutar todos os dias desconsiderando nossa humanidade”. Participaram da entrevista Paula Farias, Jorge Américo e Douglas Belchior.
PF, JA e DB: Como você iniciou sua militância no movimento negro e como surgiu o Quilombo X e a campanha do Reaja?
Hamilton Borges: Iniciei de verdade minha militância, com os exemplos de minha mãe, avó e minha tia que me criaram, cresci vendo mulheres cuidando da família. Elas me deram exemplo de solidariedade africana, no bairro mais negro do mundo depois do Harlem: o Curuzu, onde foi fundado o Bloco afro Ilê Aiyê. Depois entrei no MNU, Movimento Negro Unificado, que colocou, desde as escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, passando por todo o país, o racismo na agenda nacional sem tréguas ou concessões. Depois em 2005 retomamos a Quilombo Xis – Ação Cultural Comunitária, que foi criada em 2001 em BH, como uma organização cultural, mas que se transformou  em uma organização política para impulsionar a “Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto”.
A Campanha Reaja surgiu em 2005 aqui em Salvador, depois de darmos um basta em contar nossos mortos pela violência racial, pela violência estatal, pelos grupos de extermínio e grupos paramilitares que a polícia legitima, retroalimenta e fortalece, seja pela ação (quando seus agentes públicos também são integrantes desses grupos) ou por omissão (quando sabe que há grupos atuando, mas não atua para impedi-lo). Ocupamos as escadarias da Secretaria de Segurança Pública com gente vinda de todo lugar da cidade e começamos a politizar nossa morte, chorar nossos mortos que não passavam de números para as organizações de direitos humanos e para os institutos de pesquisas, ONGs e toda sorte de organização de rapina. Começamos a dar nome aos mortos e evidenciar o caráter genocida neles contido.
PF, JA e DB: Em todos esses anos dedicados ao movimento negro, você sempre conviveu com intimidações, mas nos últimos tempos a situação piorou. Você acha que isso é um reflexo da Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro, que vem crescendo a cada ano?
Hamilton Borges: Desde o primeiro momento que a Reaja tomou a rua já foi um processo tenso. Negras e Negros de favelas e periferias tomando sua voz, não permitindo mediação de parlamentares ou especialistas bem pagos, isso já criou um ranço, estava demonstrada a ruptura, não queríamos fazer concessões com nossa desgraça – e a enfrentaríamos até as últimas consequências. Aí a Polícia, os Governos, eles olharam para nós como uma ameaça a sua cultura de medo e silêncio e nos trataram como criminosos. Sentimos na pele esse processo de criminalização, prisões sem fundamentos, retaliações, acusações infundadas, ameaças, foi então que procuramos criar nossas formas de fortalecimento, redes de proteção fora do Estado, fora do país, pautando a ONU, a OEA, buscando apoio da Justiça Global, da Anistia internacional, da imprensa séria.
Claro que a Marcha só poderia resultar em retaliação. No plano internacional nós revelamos ao mundo que o Genocídio é um fato no Brasil, um crime de lesa humanidade praticado contra um povo que construiu essa nação e vive cercado de morte, terror estatal e encarceramento em massa. Depois no plano nacional chamamos o movimento negro em especial e o movimento social de um modo geral a reagir, sair para a rua, sem bandeira de partido, sem dinheiro de governo, sem reivindicação eleitoral. Foi muita ousadia, ainda mais vindo de um grupo que em sua base e em seu comando tem mulheres, mulheres de presos, ex-presos, desempregados, gente de favela, gente do mato (a Reaja é Coordenada por um comitê de mulheres, Dra Andreia , Aline Santos , Jamile , Elaine, Fabia). Os caras disseram aos nossos amigos do exterior que perderam o controle da Marcha, esses caras são os garotos de recado dos governos com seus diplomas e MBA e sua mentalidade de capacho esperando que o país mude a lógica racista com programinhas e projetos e a gente dizendo que só muda com outro modelo de Estado, outra nação e não essa dos brancos.
E no plano doméstico, na Bahia, enfrentar os políticos que defendem pena de morte e prisão perpétua, como Oto Alencar, enfrentar a polícia matando nossa gente (30 em um mês no bairro da Suburbana, 21 no Bairro do Engenho Velho de Brotas, 16 no Bairro do Nordeste de Amaralina), enfrentar os cabos eleitorais com suas promessas de cooptação, e irmos para frente do Quartel mais antigo da Policia Militar do Brasil, aflitos  e dizer que queremos o fim da polícia militar, a desmilitarização da segurança pública, justiça para os mortos e que naquele dia, 22 de agosto de 2014, eles não matariam nenhum negro ou negra, essa performance radical é muito para a cabeça dos policiais acostumados a nos chutar todos os dias desconsiderando nossa humanidade.
PF, JA e DB: Nesses casos de perseguição, ameaças, invasão a sua casa, como você tem lidado com isso? Qual a posição das autoridades políticas e das lideranças dos grupos de outros movimentos negros diante desses fatos? Você se sente respaldado por eles?
Hamilton Borges: Olha tem uma coisa de ano eleitoral que cala a boca de muita gente boa. Tem muita gente boa que foi para o governo e não pode contrariar quem lhe paga o salário, temos apoio dos movimentos independentes, apoio do exterior, na Espanha  nossa Irmã, a FOJA, articula em toda Europa uma campanha “Somos todos Hamilton Borges”, dos Estados Unidos a força vem do Texas, vem de São Paulo (Posse Haussa, Uneafro, Quilombagem, Estudantes Negros da USP, Douglas Belchior, CRP-SP, Afropress), do Rio de Janeiro (Justiça Global, Anistia Internacional, Coletivo Das Lutas), vem da Reaja de João Pessoa, aqui na Bahia sai das comunidades, das vilas, favelas, cadeia. Mas entendemos esse sequestro da solidariedade de certos movimentos, eles estão num tipo de pragmatismo eleitoral que tem que fechar os olhos para certas coisas e nós somos o oposto disso: nós somos o combate.
O Governo Estadual já está sabendo, a Anistia e a Justiça Global enviaram ofícios para  a SSP-BA (Secretaria de Segurança Pública da Bahia) e para a SJDH (Secretaria de Justiça e Direitos Humanos). Nós comunicamos por e-mail à SEPROMI (Secretaria de Promoção da Igualdade), que “deve cuidar das questões dos negros”, como eles dizem, mas até agora só houve silêncio do governo, o mesmo silêncio ocorrido quando policiais tentaram invadir minha casa depois da Marcha de 2013. Nós da Campanha Reaja nos sentimos respaldados pela solidariedade que vem dos nossos primeiramente, como Lázaro Ramos que conversou conosco, tirou foto, nos apoiou, coisa que pode parecer simples, mas faz a maior diferença.
PF, JA e DB: Houve algum posicionamento por parte do governo frente às denúncias de abuso de autoridade?
Hamilton Borges: Até agora nada. A Bahia está mergulhada num mar de sangue, atos de terror praticado por policiais e bandos criminosos de extermínio, e o governo não fala uma palavra, nossa vida não tem valor para essa agenda. Se morresse um jovem branco de classe média eles escreveriam um tratado pela vida – e isso são todos os candidatos, com exceção do único candidato negro ao Senado que tem feito um debate solitário sobre direitos humanos e racismo.
PF, JA e DB: Qual a importância da Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro, essa articulação entre vários companheiros de luta de diversos estados?
Hamilton Borges: Na verdade são diversos Estados e vários Países. Demos um passo de unidade internacional. Saímos da condição de mendigar espaço na agenda de organizações que nos colocam como assessório, despertamos a agenda do genocídio como motor da luta negra e podemos construir grandes pontes para repensar a sociedade do ponto de vista das negras e dos negros, sem precisar entregar nossos símbolos sagrados (como uma conta de orixá) a um salvador ou salvadora que pouco se importa com nossa vida desprotegida. O recado que demos é que podemos nos organizar sem pedir migalhas.
PF, JA e DB: Fazendo uma reflexão sobre a campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto, quais foram os avanços?  E como tem sido a participação dos jovens nessa luta?
Hamilton Borges: Nossa Campanha não é geracional, mas evidente que os jovens cumprem um papel importante e elas e eles tem enfrentado bem esse debate, feito avançar. Nós colocamos várias agendas em foco, sempre afirmando a centralidade do racismo. Nós popularizamos o debate sobre encarceramento em massa, a revista vexatória e o fortalecimento dos familiares na luta pela memória de seus entes.Nós provocamos o governo a criar um programa para enfrentar a morte de jovens negros, mas como sempre o governo federal tem “pudores” em pronunciar a palavra negro e não coloca orçamento necessário para a boa política (daí a coisa  fica focada em encontros e seminários). Mas, sobretudo demos uma arma a nosso povo, somos continuidade de nossos mais velhos, muitas e muitos ainda vivos, que disseram que não podíamos negociar o racismo, mas combatê-lo. Quem quer promover igualdade tem que ir à porta ao lado, a Reaja é outra coisa, é Quilombismo.
PF, JA e DB: Neste ano de eleição como o movimento tem se posicionado? Qual análise fazem das candidaturas à Presidência da República? Vocês têm alguma esperança em fazer avançar a pauta do combate ao racismo e ao genocídio em alguma das candidaturas colocadas?
Hamilton Borges: Nós da Reaja não falamos por ninguém, mas não vemos alternativa para nosso povo com o que tem aí. Vá na Favela do Moinho e pergunte ao povo o que eles acham, e ali é a cidade mais rica do Brasil – São Paulo. O povo vai te dizer que o Estado não existe. Nenhum desses três candidatos mais bem colocados,  em seus debates falam uma linha sobre o racismo ou os direitos humanos ou a situação carcerária. As eleições se tornaram um trabalho subalterno para negros e negras com bandeiras e faixas nos faróis, os palanques lotados de brancos e empresários. Para nós a aposta é na organização para a autonomia comunitária e pressão sobre nossos inimigos.
PF, JA e DB: Diante dos assustadores números de assassinatos de negros, como mostrou o Mapa da Violência 2014, e da negligência por parte do Estado, quais os próximos passos para esse enfrentamento?
Hamilton Borges: Temos que cada vez mais internacionalizar o debate e a organização e ao mesmo tempo internalizar, chamar para dentro para o interior, para  as comunidades, levar a mensagem e o método de solidariedade e autonomia, criar uma organização horizontal, baseada na vida real, criar instrumentos de pressão e ao invés de seguirmos com pires nas mãos, enfrentar  as oligarquias, os racistas, sexistas e homofônicos com força negra de todas as camadas conscientes e fortalecidas. O próximo passo é a III Marcha, cuja preparação já começamos desde o dia 23 de agosto de 2014.
PF, JA e DB: Faça, por fim, as considerações que achar necessárias.
Hamilton Borges: Precisamos de outro modelo de nação que seja realmente inclusivo e isso não conquistaremos com arranjos, com remendos, precisamos de outra política, outro Estado que vamos conquistar com luta e solidariedade.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

AMNA convoca Região Nordeste de Amaralina para a marcha!

A AMNA convoca todos e todas à marchar contra o genocídio do povo negro, que acontecerá no dia 22/08 (próxima sexta-feira) às 15:00 h no Campo Grande.

Entendemos a importância deste ato político, um ato de resistência, uma forma de reagir contra o que aconteceu e continua acontecendo com os negros deste lugar. O braço armado do Estado continua a assassinar sistematicamente a população negra.

A região Nordeste de Amaralina (Vale das Pedrinhas, Chapada do Rio Vermelho, Santa Cruz e Nordeste), comunidade formada por 89% de negros e pardos, segundo o censo do IBGE 2010, tem uma longa lista de crianças e jovens que foram executados por esta instituição facínora, e por isso, agora é convocada a reagir.

#REAJA!


quinta-feira, 3 de julho de 2014

Jovem, homem, negro é o perfil dos que mais morrem de forma violenta no país

Entre 2002 e 2012 o número de homicídios de jovens brancos caiu 32,3% e o dos jovens negros aumentou 32,4%
02/07/2014
Em média, 100 a cada 1.000 jovens com idade entre 19 e 26 anos morreram de forma violenta no Brasil em 2012, mostra o Mapa da Violência 2014, que considera morte violenta a resultante de homicídios, suicídios ou acidentes de transporte (que incluem aviões e barcos, além dos que ocorrem nas vias terrestres de circulação).
O estudo mostra ainda que a situação não é nova. Nos anos 1980, a taxa era 146 mortes por 100 mil jovens, e passou para 149, em 2012. A diferença também é diagnosticada quando comparados homens e mulheres. Entre 1980 e 2012, no total das mulheres, as taxas passam de 2,3 para 4,8 homicídios por 100 mil. Um crescimento de 111%. Entre os homens, a taxa passa de 21,2 para 54,3. Um aumento de 156%.
No caso dos suicídios, a pesquisa revela mortalidade três a quatro vezes maior no caso dos homens, no Brasil. Entre as décadas citadas, as taxas masculinas cresceram 84,9%. Já as femininas, 15,8%.
Uma terceira variável chama a atenção na pesquisa: a vitimização dos negros é bem maior que a de brancos. Morreram proporcionalmente 146,5% mais negros do que brancos no Brasil, em 2012. Considerando a década entre 2002 e 2012, a vitimização negra, isso é, a comparação da taxa de morte desse segmento com a da população branca, mais que duplicou.
Segundo o responsável pela análise, Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador da Área de Estudos da Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências, o recorte racial ajuda a explicar o fato de não ter se verificado na pesquisa grandes mudanças nas taxas globais de homicídios, embora o número registrado a cada ano tenha aumentado. Os brancos têm morrido menos. Os negros, mais. Entre 2002 e 2012, por exemplo, o número de homicídios de jovens brancos caiu 32,3% e o dos jovens negros aumentou 32,4%.
De acordo com Jacobo, essa seletividade foi construída por diversos mecanismos, entre os quais o desenvolvimento de políticas públicas de enfrentamento à violência em áreas onde havia mais população branca do que negra, bem como o acesso, por parte dos brancos, à segurança privada. Assim, os negros são excluídos duplamente - pelo Estado e por causa do poder aquisitivo. “Isso faz com que seja mais difícil a morte de um branco do que a de um negro”, destaca o sociólogo.
Ele alerta que essa situação não pode ser encarada com naturalidade pela população brasileira. “Não pode haver a culpabilização da vítima”, diz Jacobo, para quem o preconceito acaba justificando a violência contra setores vulneráveis. O sociólogo, que em 2013 recebeu o Prêmio Nacional de Segurança Pública e Direitos Humanos da Presidência da República, defende o estabelecimento de políticas de proteção específicas, que respeitem os direitos dos diferentes grupos e busquem garantir a vida da população.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Entidades lutam para impedir venda de áreas públicas Documento assinado por 13 instituições foi protocolado no Ministério Público nesta quarta-feira



Entidades e movimentos da sociedade civil, com atuações em defesa da cidade nas mais diversificadas esferas, decidiram se unir para barrar o Projeto de Lei nº 121/14, de autoria da Prefeitura de Salvador, que pretende alienar 62 áreas públicas, que totalizam 587.460 m2.
Para conseguir este objetivo, as 13 instituições protocolaram nessa quarta (4), pela manhã, uma representação no Ministério Público da Bahia (endereçada ao Procurador-Geral Márcio Fahel e às Promotorias de Habitação e Urbanismo, Meio Ambiente e Cidadania) exigindo a imediata retirada da proposição enviada pelo prefeito ACM Neto à Câmara de Vereadores no dia 20 de maio de 2014. O documento com reivindicações das entidades foi entregue à Presidência do Legislativo Municipal.

Na representação, eles destacam diversos aspectos do projeto de lei que não foram esclarecidos. Os representantes das entidades citam “a ausência de avaliação e de estudos técnicos que comprovem o interesse público" na desafetação e alienação dos bens, assim como a falta da publicação de uma avaliação dos valores dos imóveis e da iniciativa de ferir dispositivos da Lei Orgânica do Município e do Estatuto das Cidades.

Para ilustrar a gravidade do problema, os representantes das entidades, a título de exemplo, apontam algumas inconsistências no processo. É o caso de terrenos na região do Vale dos Barris, de propriedade municipal e que constam no projeto de lei para alienação. Nessa área deverá ser construído o futuro Centro Administrativo Municipal, de acordo com o Plano Estratégico da Prefeitura 2013-2016 e da modulação do PDDU aprovada em fevereiro deste ano. “Qual seria o interesse público em alienar áreas onde se devem, por lei, ser construídos edifícios públicos?”, questionam.

Outro exemplo citado pelas entidades é o da Praça Wilson Lins, inaugurada recentemente no espaço do antigo Clube Português. Neste caso, as entidades revelam preocupação com a alienação daquela que é uma das poucas praças públicas litorâneas da cidade. Eles entendem que, caso a área seja vendida, além da perda do espaço público, poderão ser construídos edifícios com até 54 metros de altura, o que irá obstruir a vista da paisagem e causar sombreamento da faixa de areia. “A prefeitura tem intenção de vender algo insubstituível, que é a paisagem”, criticam as lideranças do movimento, que ainda denunciam que parte da área a ser vendida seria “terreno de marinha”, de propriedade da União.

A representação entregue no Ministério Público e à Câmara Municipal foram assinadas pelo Movimento DesocupaColetivo MobicidadeGrupo Botequim;Movimento Nosso Bairro é 2 de JulhoComitê Popular da Copa da BahiaGermen; Fórum A Cidade Também é NossaGrupo Hermes de CulturaMovimento Vozes  de SalvadorVida Brasil; Amabarra (Associação dos Moradores e Amigos da  Barra)Grupo de Pesquisa Lugar Comum (UFBA) e Amna (Associação dos Moradores do Nordeste de Amaralina).

domingo, 27 de abril de 2014

Exigimos: Queremos ver o projeto!



SALVE COMUNIDADE!

Ficamos sabemos que estão ocorrendo reuniões e visitas da multinacional Odebrecht na comunidade sobre um determinado projeto que traria "melhorias" para a região.

Não somos contra projetos de melhoria, uma vez que precisamos cada vez mais de melhorias no bairro. O que nos deixa preocupados é o desconhecimento sobre o conteúdo desse projeto.

Sabemos que o Nordeste de Amaralina é uma "pequena" cidade dentro de Salvador, com cerca de 100 mil habitantes, situada numa faixa de intensa especulação imobiliária por se encontrar próxima à orla atlântica da cidade.

Durante a história de ocupação e consolidação da região já houveram várias tentativas do poder público e privado de "expulsar" os moradores dessa região. Os moradores, por sua vez, resistiram com muita luta.

Uma grande incorporadora como a Odebrecht, interessada no Nordeste de Amaralina, nos faz ficar apreensivos quanto aos interesses por trás dessas "melhorias".

A região Nordeste de Amaralina, formada por quatro bairros (Chapada do Rio Vermelho, Santa Cruz, Vale das Pedrinhas e Nordeste) sofre historicamente com o descaso histórico do poder público. Temos carência de áreas de lazer, equipamentos comunitários de cultura, postos de saúde com péssimo serviço e estrutura danificada, péssimos estabelecimentos de educação com ensino precário, carência de creches, péssimo serviço de transporte, coleta de lixo ineficiente, saneamento básico precário, infra-estrutura urbana que foi implantada nos anos 70!!, entre outras dificuldades.

Acreditamos que a melhoria da qualidade vida está intimamente ligada à falta e qualidade desses equipamentos e serviços citados acima.

Exigimos dos responsáveis por esse projeto que se apresentem formalmente e que apresentem o projeto à comunidade, já que este "projeto de melhorias" irá afetar diretamente nossas vidas!

Participe das nossas reuniões todas as Terças-Feiras, às 19:00h na Paróquia Santo André (Vale das Pedrinhas). O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO!

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Saúde na UTI!


A saúde do Nordeste de Amaralina pede socorro!

Esta é a placa da Unidade de Saúde de Família do Vale das Pedrinhas, localizada na rua do gás, que deveria estar sendo construída desde o dia (17/03/2014) pela Prefeitura Municipal de Salvador segundo a própria placa. Hoje, 01/04/2014, ainda não haviam sinais de início de obras, apenas lixo espalhado por todos os lados na rua do gás, um cenário que já é comum para os moradores. Vale lembrar também que o PRAZO DE CONSTRUÇÃO DESSA USF É DE 300 DIAS, JÁ ESTÁ ATRASADA!

Resta saber se com a construção dessa unidade, caso aconteça, a Prefeitura irá resolver o problema crônico da regularização e ampliação da coleta de lixo, da drenagem de água da chuva e o esgoto que afetam a região da rua do gás.

Além disso, estamos com uma demanda urgente de saúde no bairro. Neste exato momento duas das três unidades de saúde existentes no bairro estão fechadas.

A unidade de Santa Cruz está fechada por conta da limpeza da caixa d'água, devido a uma contaminação causada por fezes de pombos, fato que fez a população se revoltar e cobrar solução imediada da Prefeitura. Estamos aguardando a reabertura marcada, segundo a Prefeitura, para a próxima segunda-feira 08/04.

A unidade de saúde do Nordeste está fechada, por conta de uma reforma.

E, por fim, unidade recém inaugurada no Vale das Pedrinhas, o multi centro, está dando dor de cabeça para população, devido ao seu excesso de demanda. Há imensas filas de moradores no período da manhã aguardando atendimento, fato que denuncia pelo menos duas situações:

1) Não houve um estudo de demanda nem planejamento de saúde antes da inauguração, ou seja a Unidade não atende a demanda do bairro (Unidade de saúde de fachada?)

2) Devido ao fechamento das duas outras unidades (Nordeste e Santa Cruz) a demanda se concentrou naquela unidade

Os moradores estão se organizando para pressionar a Prefeitura para que tenhamos saúde PÚBLICA, DE QUALIDADE E GRATUITA, como diz a nossa Constituição Federal!

Continuamos na luta!

Participe da nossas reuniões todas as terças-feiras, às 19:00h na Paróquia Santo André!

quinta-feira, 27 de março de 2014

Seguimos na luta!


 


Uma batalha vencida!!

Esse é o sentimento da população do Nordeste de Amaralina na defesa da Unidade de Saúde de Santa Cruz.

A comunidade está se unindo cada vez mais para construir um bairro, uma cidade, um país, um mundo cada vez melhor para nós!

Esse ato foi uma resposta ao descaso com que a saúde na região Nordeste de Amaralina vem sendo tratado. A Unidade Básica de Saúde de

Santa Cruz, está funcionando precariamente. Estão havendo diversas tentativas do poder público municipal, através da Secretaria Municipal de
Saúde, para fechá-la, fato que é uma afronta à nós cidadãos pagadores de impostos!

Nós pagamos impostos caros para manter com qualidade os serviços públicos e reivindicamos que sejam dignos de prestação de

atendimento para a população, inclusive a quem mais precisa, cumprindo assim, o princípio legal da EQUIDADE, ou seja, saúde de qualidade

para todos!!.

A Constituição Federal está explicitando o DEVER DO ESTADO em prover saúde de QUALIDADE para a população. O Governo Federal

repassa grandes quantias em dinheiro para a manutenção do Sistema Único de Saúde, não há argumentos para manter o Posto da Santa Cruz

nessa situação!

Faltam materiais básicos para os profissionais trabalharem com dignidade, além do número de profissionais insuficientes para atender a uma

população de aproximadamente 30 mil pessoas.

A comunidade construiu uma pauta para reivindicar melhoria para a saúde na Santa Cruz, mas que podem ser estendidas para toda a região do

Nordeste de Amaralina,  seguem os pontos:

A) Implantação do Programa Saúde da Família (PSF) para 100% da população;
B) Implantação do Programa de Anemia Falciforme;
C) Implantação do Programa Saúde do Homem;
D) Ampliação do número de Agentes Comunitários de Saúde para cobertura de todas as áreas do bairro;
E) Ampliação das ações de promoção à saúde na comunidade;
F) Realização de um encontro local de saúde com todas as Unidades de Saúde da Região do Nordeste de Amaralina;
G) Implantação de um sistema de drenagem pluvial para escoar as águas da cobertura do Posto;
H) Finalização do serviço de limpeza, e dedetização do Posto de Saúde e sua área do entorno;
I) Prestação de contas para a comunidade dos serviços de reforma e limpeza realizado no Posto de Saúde da Santa Cruz;
J) Avaliação conjunta (profissionais de saúde e comunidade) do impacto das ações e serviços de saúde prestados pela Unidade de Saúde

aos moradores do bairro;

PARTICIPE DAS NOSSAS REUNIÕES TODAS AS TERÇAS-FEIRAS ÀS 19:00 H NA PARÓQUIA SANTO ANDRÉ!

VAMOS UNIR FORÇAS PARA REIVINDICAR NOSSOS DIREITOS. UNIDOS VENCEREMOS!

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Rua do Gás, problema crônico



Alguns até dizem que é culpa dos moradores que jogam o lixo fora da caixa e etc. Mas ficam as seguintes perguntas...

Será que nós, os moradores fomos conscientizados (pela empresa de coleta, Limpurb, etc) quanto à questão da educação ambiental? (Porque nossos colégios públicos de ensino precário COM CERTEZA NÃO FIZERAM ISSO)

Será que a caixa de lixo tem a dimensão apropriada para acondicionar a demanda de lixo que recebe?

Será que não seria possível fazer um simples estudo pra se calcular essa demanda?

Será que a coleta periódica (de 5 em 5 dias) realmente resolve?

Será que existe alguma preocupação da Revita, Vega, Embasa, Limpurb, Prefeitura ou Governo do Estado pra resolver essa situação?

Será esse problema não diz respeito só ao lixo mas à drenagem pluvial e o esgoto dessa região, que é fundo de vale, onde não existe drenagem e o sistema de esgoto é SUBDIMENSIONADO?

Será que os gestores que vão e que vêm se preocupam realmente com esse local, essa comunidade, ao invés de ficar pregando que a "prefeitura está trabalhando"?

Será que aquela contenção (em ruínas) vai ter que desabar, gerando uma tragédia para que resolvam o problema?

Ficam algumas questões pra reflexão... Enquanto isso, sofremos.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A situação de abandono dos bairros populares de Salvador e o caso do Nordeste de Amaralina

Foto: Rua do Gás, Vale das Pedrinhas (Nordeste de Amaralina)

A foto acima ilustra apenas uma parte dos problemas que os bairros populares de Salvador estão sofrendo.  Caos e abandono imperam nesses lugares esquecidos pelo poder público, em especial, o poder público municipal. A administração do prefeito ACM Neto já vem fazendo intervenções na cidade há algum tempo, principalmente nas localidades onde habitam as classes médias e altas da cidade. Além das propagandas da prefeitura na TV, outdoors e outros meios, manchetes de jornais periodicamente exibem as cifras exorbitantes em projetos de requalificação urbana, mobilidade e etc (o último foi o projeto de requalificação da orla da Barra, orçado em cerca de 50 milhões!). No entanto, visivelmente vem “esquecendo” dos bairros populares deixando-os a mercê do tempo. Nada novo até aqui, visto a administração Neto, segue a mesma linha do seu falecido avô, voltada para as elites, empresários do ramo imobiliário e de transportes. Além disso, uma administração regada a propagandear a “felicidade do povo baiano” e a “pão e circo”, incluindo, e este é um aspecto novo desse neo-carlismo, a retórica de gestão administrativa baseada na eficiência prática empresarial.

Mas pra quem essa eficiência da gestão empresarial é voltada? A resposta está em todo lugar, basta observar as diferenças entre os bairros considerados de classe média (Iguatemi, Pituba, Barra, Ondina, Campo Grande e outros) e os bairros do miolo e periferia da cidade (Pau da Lima, São Cristovão, Cajazeiras, São Caetano, Fazenda Grande do Retiro, Periperi, Liberdade, Paripe, Alto de Coutos entre outros), além das “ilhas de desigualdade “ localizadas nas áreas mais centrais mas esquecidas pelo poder público (Calabar, Alto das Pombas, Nordeste de Amaralina, Alto de Ondina, etc), onde a grande maioria da população de Salvador reside.  É perceptível até para os olhares menos atentos, a diferença com o tratamento da infra-estrutura urbana, trânsito, lixo, serviços públicos, saneamento, etc. Mas, até aqui, nada de novo também.

No Nordeste de Amaralina, uma dessas “ilhas de desigualdade” cercadas por bairros de classe média por todos os lados, não seria diferente.  Além dos serviços públicos municipais estarem entreguem as moscas, toda a infra-estrutura dependente do poder municipal está em ruínas. Para se ter uma idéia, a infra-estrutura urbana existente do bairro é da década de 70! E, claro, isso pode se generalizar para todos os bairros populares dessa cidade. Em todo o canto se vê ruas esburacadas, asfalto degradado, lixo nas ruas, esgotos a céu aberto. Se em período de chuvas, a cidade fica um caos, no Nordeste de Amaralina esta situação piora dez vezes mais!
Foto: Rua do Gás, Vale das Pedrinhas (Nordeste de Amaralina)

O sistema de drenagem pluvial inexistente junto ao subdimensionamento do sistema condominial de esgotamento sanitário e ao descontrole TOTAL do poder público com o ordenamento do solo, receita para alagamentos e inestimáveis perdas materiais para os moradores. Fato curioso é que o prefeito tenta fazer “maquiagens” no bairro, a última foi uma intervenção onde foi removido um módulo policial desativado para a construção de uma praça no Vale das Pedrinhas. Foi construída uma coisa que pode ser chamada de qualquer outra coisa, menos de praça. Uma aberração urbanística apenas para ter o que propagandear nos seus meios de comunicação e tentar “calar a boca” do povo. Porém, como se pode perceber, esta ação não obteve o objetivo esperado.

Esgotos ao céu aberto nos fazem esquecer, por um momento, que estamos no Brasil (propagandeado país da Copa de 2014). Por um momento chegamos a imaginar que estamos vivendo na África subsaariana, Haiti ou coisa parecida, tamanho é o descaso do poder público com esta questão. A rede de transportes é a pior possível, além de não haver mais espaços para estacionar os ônibus nos finais de linha, ocasionando engarrafamentos terríveis também dentro do bairro. Postos de saúde são “maquiados”, no entanto os serviços fornecidos continuam precários e o trabalho dos funcionários fundamentais para o serviço de saúde, como os Agentes Comunitários de Saúde, continua desvalorizado. Da mesma forma, existe uma coleta de lixo, porém ineficiente e se mostra carente de uma logística adequada e adaptada as condições de topografia e infra-estrutura urbanística do bairro, fortalecendo a evidência de completo descaso com que são tratados os bairros populares neste quesito.

Por fim, estamos diante de um quadro de total abandono e descaso. Acreditamos que esse quadro não irá mudar enquanto não tomarmos uma atitude, nos unir e nos organizar e lutar em prol do objetivo da qualidade de vida e dignidade nos nossos ambientes de vida. A Associação de Moradores do Nordeste de Amaralina assume essa posição perante a administração atual, de cobrar melhorias não apenas para nossa região, mas para todos os bairros populares de Salvador, que sofrem, apesar de suas peculiaridades, problemas iguais aos nossos em diferentes escalas de intensidade.

Publicamos aqui nossa breve reflexão acerca dos problemas mais visíveis do bairro e seguimos na luta em prol dos interesses dos moradores da região.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Etnografia do “rolezinho

A AMNA reproduz o texto de Carta Capital por achar uma interessante análise sobre os "rolezinhos", assunto que está causando diversos debates atualmente.

Lembrando que haverá um grande "rolezinho" aqui em Salvador no dia 1º de fevereiro, para mais informações basta ir na página do evento no facebook.

Segue o texto abaixo:

O ato de ir ao shopping é político: porque esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços que a sociedade lhes nega dia a dia
por Rosana Pinheiro-Machado — publicado 15/01/2014 08:59, última modificação 15/01/2014 10:54
Rosana Pinheiro-Machado
Em 2009, eu e minha colega e amiga, Lucia Scalco, começamos a estudar o fenômeno dos bondes de marca. Como? A gente reunia a rapaziada, descíamos o morro e íamos juntos dar um rolezinho pelo shopping – o lugar preferido desses jovens da periferia de Porto Alegre. Eles nos mostravam as marcas e lojas preferidas. Contavam como faziam de tudo para adquirir esses bens (descrevemos todas as possibilidades em nossos papers). Havia um prazer e empoderamento nesse ato de descer até o shopping. Eles não queriam assustar, porque nem imaginavam que a discriminação fosse tão grande que eles pudessem assustar. Muito pelo contrário: eles faziam um ritual de se vestir, de usar as melhores marcas e estar digno a transitar pelo shopping.
Uma vez um menino disse que usava as melhores roupas e marcas para ir ao shopping para ser visto como gente. Ou seja, a roupa tentava resolver uma profunda tensão da visibilidade de sua existência. Mas, noutro canto, os donos da loja se assustavam e cuidavam para ver se eles não roubavam nada. Um funcionário disse à Lucia a mais honesta frase de todas (uma honestidade que corta a alma): “não adianta eles se vestirem com marca e virem pagar com dinheiro. Pobre só usa dinheiro vivo. Eles chegam aqui e a gente na hora vê que é pobre”. Eles, no entanto, acreditavam que eram os mais adorados e empoderados clientes das lojas.
Um funcionário da Nike uma vez declarou para a pesquisa: “nós nos envergonhamos desse fenômeno de apropriação da nossa marca por esses marginais”. Mas eles nos diziam: “as marcas deveriam nos pagar para fazer propaganda, porque nos as amamos. Sem marca, você é um lixo”. Quando mostrei o Funk dos Bens Materiais em aula, uma aluna de camadas altas comentou: “quando a gente vê a figura toda montada, marca estampada, já vê que é negão favelado”. Infelizmente não me surpreendeu o fato de toda a aula ter caído na risada. Esse mesmo tipo de pessoa é aquela que ainda diz que é um absurdo comprar televisão, “pobre deveria alimentar a prole” e ponto final. No programa Papai Noel dos Correios, que eu e Lúcia analisamos, uma menina desafiava o seu destino: “kirido papai noel: eu me comportei, eu passei de ano, eu cuido da minha vó, meu pai sumiu de casa. Eu só quero uma calça da Adidas!”. Mas vocês podem concluir que cartas como essas são relegadas por meio de uma moralidade escrota: todos os pedidos de meninas e meninos de roupas de marca eram vistos como um desaforo. Que absurdo! Afinal, pobre deve pedir material escolar e bicicleta!
Tenho ficado quieta nesse caso do “rolezinho” porque este talvez seja o assunto que mais seja caro à minha sensibilidade acadêmica e política. Esse tema é justamente o que me faz me afastar de uma certa antropologia vulgar com suas interpretações do tipo “que lindo essas pessoas se apropriam das marcas e dão novos significados e agência e bla blá blá prá boi dormir”. Mas também é este tema que me aproxima ao que a antropologia tem de melhor: ouvir as pessoas. Não há uma grande diferença do “rolezinho” organizado e ritualizado das idas aos shoppings mais ordinárias (ainda que a ida ao shopping pelas classes populares nunca tenha sido um ato ordinário), mas vejo uma continuidade que culmina num fenômeno político que nos revela o óbvio: a segregação de classes brasileiras que grita e sangra. O ato de ir ao shopping é um ato político: porque esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços que a sociedade lhes nega dia a dia. Quando eu vejo aquele medo das camadas médias, lembro daquelas pessoas que se referiram “aos negões favelados”. E há certa ironia nisso. Há contestação política nesse evento, mas também há camadas muito mais profundas por trás disso.
Estou acompanhando os “rolezinhos” e sinto certo prazer em ver aquela apropriação. Mas entre apropriação e resistência há um abismo significativo. Adorar os símbolos de poder – no caso, as marcas – dificilmente remete à ideia de resistência que tanta gente procura encontrar nesse ato. O tema é complexo, não apenas porque desvela a segregação de classe brasileira, mas porque descortina a tensão da desigualdade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, entre o Norte e o Sul. E enquanto esses símbolos globais forem venerados entre os mais fracos, a liberdade nunca será plena e a pior das dependências será eterna: a ideológica. Por isso, para entender a relação que as periferias globais têm com as marcas e os shoppings, é preciso voltar para os estudos colonialistas e pós-colonialistas.
A apropriação de espaços símbolos hegemônicos, desde Mitchell até Newell, passando por Bhabha, Rouch e Ferguson, nos mostra uma permanente tensão na apropriação que tenta resolver a brutal violência que esta por trás desse ato. O meu lado otimista não nega o que esses jovens nos disseram: do prazer que sentem em se vestir bem e circular pelo shopping para SEREM VISTOS. Meu lado pessimista tende a concordar com Ferguson de que há menos subversão política e mais um apelo desesperador para pertencer à ordem global. É preciso entender o “rolezinho” dentro de uma perceptiva do Sul Global de séculos de violência praticada na tentativa de produzir corpos padronizados, desejáveis e disciplinados.
O pobre no shopping repete a mimeses de Bhabha. A classe média disciplinada vê os jovens vestindo as marcas do mercado hegemônico para a qual ela serve. A classe média vê os sujeitos vestindo as mesmas marcas que ela veste (ou ainda mais caras), mas não se reconhece nos jovens cujos corpos parecem precisar ser domados. A classe média não se reconhece no Outro e sente um distúrbio profundo e perturbador por isso. Não adianta não gostar de ver a periferia no shopping. Se há poesia da política do “rolezinho” é que ela é um ato fruto da violência estrutural (aquela que é fruto da negação dos direitos humanos e fundamentais): ela bate e volta. Toda essa violência cotidiana produzida em deboches e recusa do Outro e, claro também por meio de cacetes da polícia, voltará a assombrar quando menos se esperar.
Rosana Pinheiro-Machado é cientista social e antropóloga. Professora de Antropologia do Desenvolvimento da Universidade de Oxford.
** Texto publicado originalmente em 30 de dezembro de 2012

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Denúncia do genocídio revelou face mais violenta do racismo

Anualmente morrem 139% mais negros do que brancos na faixa dos 15 a 24 anos
10/01/2014
Daniele Silveira
de São Paulo (SP)
Enquanto as pautas relacionadas às ações afirmativas caminham a passos lentos, a violência contra jovens negros continua em alta e com respostas tímidas do Estado. A reivindicação pela desmilitarização da polícia ganhou força nas ações do movimento negro este ano e está entre as principais exigências das organizações que atuam na periferia.
As vítimas de homicídios no Brasil apresentam um perfil em comum. Segundo dados do Ministério da Saúde, 53% são jovens. Desses, mais de 75% são negros. A situação é confirmada pelo Mapa da Violência 2012. O estudo indica que entre 2001 e 2010 o número de vítimas brancas, de 15 a 24 anos, caiu 27,5%, enquanto o índice de negros assassinados aumentou 23,4%. Anualmente morrem 139% mais negros do que brancos na faixa dos 15 a 24 anos.
Débora Maria, coordenadora do movimento Mães de Maio, que organiza familiares de jovens mortos por policiais, denuncia a falta de políticas públicas para a juventude negra e pobre. Em vez de direitos sociais, ela aponta o fortalecimento da violência por parte do Estado.
“A gente vê que entra ano e saí ano e existe uma camuflagem, mas uma política verdadeiramente de enfrentamento [à violência], a perspectiva de vida para juventude está difícil. A política que o nosso governo oferece para a juventude é encarceramento em massa e extermínio por parte das instituições dos policiais. Então, o que a gente vê é um número crescente por parte do extermínio e sem uma punição severa aos algozes dos nossos filhos.”
Estimativas indicam que apenas 3% dos casos em que há morte em confronto com a polícia são investigados no país.
“Autos de resistência”
O fim dos “autos de resistência” é apresentado como reivindicação paralela à desmilitarização. Os movimentos pressionam o Congresso Nacional pela aprovação do Projeto de Lei (PL) 4471/ 12, que acaba com esse tipo de ocorrência e torna obrigatória a investigação dos casos em que há suposto confronto com policiais.
O programa Juventude Viva, lançado pelo governo federal em setembro de 2012, para fazer o enfrentamento da violência contra a juventude negra no país ainda não deu respostas aos movimentos.
Débora, que teve seu filho morto na Baixada Santista por policiais durante os chamados Crimes de Maio de 2006, tem receio de que o projeto seja usado apenas como uma política “oportunista”. Para o enfrentamento, de fato, do genocídio da população negra na periferia, ela destaca a necessidade da implementação de medidas que dêem condições de vida a essa população.
“Nós somos sequestrados na parte da educação e o caminho para um Brasil sem violência começa pela Educação. Os nossos governantes nos aterrorizam não dando educação para os nossos filhos. Não há educação de qualidade para as pessoas poderem discutir e terem conhecimento dos seus direitos; só os deveres. E uma moradia digna, sem a qual vários são jogados para dentro das periferias.
É o caminho de todos nós com falta de uma moradia digna e uma saúde de qualidade. E não deixar para trás a segurança, que, para nós, é insegurança com a qual ele [o Estado] nos oferece.” Nos chamados Crimes de Maio de 2006, forças de segurança executaram mais de 500 pessoas no intervalo de oito dias (12 a 20 de maio). As ações, amplamente questionadas, ocorreram após atentados a viaturas, bancos, delegacias e órgãos públicos promovidos pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).
A maioria dos casos foi registrada como resistência seguida de morte, mas inúmeros relatos denunciam ações de grupos de extermínio formados por policiais. Relatórios produzidos por organizações de defesa dos Direitos Humanos apontam sinais de execução, como tiros na cabeça e vítimas baleadas pelas costas.
Para 2014, Débora adianta que a luta contra o racismo e em defesa da população negra continua. “Queremos avançar, não queremos ser blindadas, não queremos ser perseguidas. Não admitimos mais esse extermínio velado no nosso país produzido por quem deveria nos dar proteção. Acreditamos que em 2014 os nossos políticos não passarão. A gente quer a Reforma Política porque esses que estão aí não oferecem uma perspectiva de vida nem para os nossos filhos, nem para toda a sociedade.”
Foto: Cau Guebo/Folhapress