terça-feira, 24 de setembro de 2013

Karl Marx no Quadrante Sudoeste

Ao refletir sobre geografia de SP, é inevitável lembrar ideias do velho barbudo sobre natureza desumanizadora do trabalho, em sociedades segregadas. Do Outras Palavras

por Juliana M. Dias — publicado 23/09/2013 17:55, última modificação 24/09/2013 08:42
ônibus lotado
Quatro horas por dia, em ônibus lotados. Considere se é possível viver criativamente, em tais condições. E pense na segregação social e étnica implicada
Por que algumas pessoas têm direito de usufruir da cidade, enquanto outras apenas vivem para enfrentá-la, num esforço diário por sobrevivência? O Brasil tem a imagem de ser cordial e amante da igualdade, mas ainda permanece essencialmente escravocrata e segregacionista. Basta um olhar em qualquer metrópole para vermos que a questão vem de séculos. Isto não significa um desejo de viver em eterna contemplação improdutiva, uma volta à vida bucólica e menos ainda uma crítica às sociedades industriais ou ao capitalismo, mas uma tentativa de reflexão sobre a busca pela realização profissional, o que as pessoas fazem com seu tempo livre, a sobrevivênciaversus a vivência. Nada disso é igual para todos, nem nunca foi.
Moro em São Paulo, no bairro do Paraíso (adjacências do Centro) e trabalho em um escritório no Brooklin (Zona Sul). Levo o mesmíssimo tempo para percorrer os 6 quilômetros de distância estando a pé ou de ônibus, exatas 1h20 – a diferença é que a pé chego com 600 calorias a menos. Isso é um sintoma de se viver em uma cidade que sucateou o seu Centro, deixando-o entregue ao abandono, onde ninguém quer morar, nem passar. O desenho urbano hoje é definido por nova região de concentração de empregos, o chamado “quadrante sudoeste” que reúne os “melhores” bairros, menores índices de mortalidade e violência, melhores serviços, temperaturas mais baixas (porque é mais arborizado), melhor infraestrutura de transporte e um chão tão caro que chega a ser irreal. É a região rica da cidade, que no Rio corresponderia à Zona Oeste. Nela, de forma geral, “ricos” moram, trabalham e precisam percorrer trajetos mínimos para acessar  todas as suas atividades de lazer -- academia, shopping, pet shop. Esse quadrante abrange bairros como Pinheiros, Vila Madalena, Brooklin, Jardins e Vila Olímpia, entre outros. Esses dados e o mapa são dos estudos do professor Flavio Villaça (USP) sobre segregação.
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Entre patrões e empregados, existem diferenças fundamentais com relação ao uso da cidade nesse “quadrante sudoeste”. Os empregadores, em geral, moram e trabalham na região; têm filhos que lá estudam; deslocam-se de carro. Já os empregados chegam de áreas distantes. Muitos moram na Zona Leste, região mais populosa da cidade, que conta com apenas uma linha de metrô (que alcança poucos de seus bairros) e uma de trem metropolitano (insuficiente e muito saturada). Uma viagens de ida ou vinda estende-se frequentemente por duas horas.
Mas as pessoas que vivem em um condomínio fechado de alto padrão, no quadrante sudoeste, não o fazem por terem “corações de pedra” ou serem “vilões contra a classe trabalhadora”. É uma questão cultural. A cidade é injusta porque a distribuição de renda o é, também. As oportunidades são desiguais. Há fraturas profundas entre as classes sociais, ainda que tenhamos passado por grandes modificações nos quadros da miséria nos últimos governos.
Imagine que você é filho ou neto de alguém que, por circunstâncias diversas, fez faculdade, teve carreira profissional bem-sucedida, pode comprar casa e pagar seus estudos em uma boa escola e uma universidade. Você morou por toda a vida em uma casa no Alto de Pinheiros (exemplo de bairro rico da Zona Oeste), que um dia será sua. Nunca viveu sem carro. Mas a cidade abriga, também, filhos de sertanejo, que veio para São Paulo tentar a sorte, empregaram-se na construção civil, construíram um cômodo em um lote invadido de Parelheiros (extremo sul) e casaram-se com empregadas domésticas. Seus filhos terão estudado, por toda a vida, em uma escola municipal. Começaram a trabalhar cedo. Nunca prestaram vestibular.
Entre os privilégios ou dificuldades que marcarão a vida desses dois personagens, quais estão ligados méritos; e quais são provenientes das oportunidades que tiveram por "herança"? Quais das conquistas do primeiro personagem fazem dele um merecedor da “melhor parte” de uma cidade, que deveria ser de todos? Bons estudos costumam desembocar em boas carreiras, mesmo que isso demande grande esforço e trabalho. Onde estarão vivendo essas duas famílias e seus descendentes, até que algum deles consiga quebrar um elo dessas correntes hereditárias? E por falar em correntes, é preciso tentar adivinhar as cores das peles desses dois personagens, que você provavelmente já imaginou? Qual deles é o descendente do imigrante europeu; qual é o bisneto do escravo? Isso está incrustado na nossa cultura, simplesmente. É uma herança da nossa miscigenação intensa, porém segregada.
Quem é mais pobre mora longe do trabalho e outros destinos. Perde no transporte tempo precioso que poderia ser usado para desenvolver uma atividade intelectual ou prazerosa. É devastador o que a falta de tempo e dinheiro estudo, leitura e outras atividades culturais pode fazer com uma pessoa; mas é ainda mais devastador não ter o direito de, simplesmente, não fazer nada: não ter tempo livre para criar, produzir autonomamente, divertir-se.
Um modelo de vida urbano baseado em sacrifícios traz, além de defasagem intelectual, diversos problemas de saúde. Algumas profissões a que estão obrigadas as pessoas obrigadas ao trabalho para mera sobrevivência são desgastantes, degradantes, aborrecidas ou humilhantes. Mas a grande maioria é exercida para enriquecer alguém. Por mais que o trabalho, qualquer um, seja “edificante” (existe mérito no esforço), é preciso ter estrutura familiar e/ou financeira para desempenhar sua vida profissional com prazer, o que geralmente determina o sucesso.
Não sou comunista, mas cito aqui o barbudo alemão, para reflexão: “O trabalho é externo ao trabalhador, não pertence ao seu ser, que ele não afirma, portanto, em seu trabalho, mas nega-se nele, que não se sente bem, mas infeliz, que não desenvolve nenhuma energia física e espiritual livre, mas mortifica sua physis e arruína o seu espírito… O trabalho não é a satisfação de uma carência, mas somente um meio para satisfazer necessidades fora dele.”
É preciso ligar as peças do quebra cabeças que faz com que a cidade simplesmente só funcione para algumas pessoas. Em qual momento ela (ou elas, já que estamos falando de metrópoles brasileiras) fugiram do controle? Vivemos o paradoxo de ter que usar o carro para ir para o trabalho e ter que trabalhar para pagar o carro. Copiamos dos filmes hollyowoodianos dos anos 1950 a fascinação por automóveis, autoestradas, eletrodomésticos, consumo. Ele não é um mal em si, e é bom que muitos tenham saído da miséria e podido ter consumir, mas quando isso se faz de forma pouco consciente, baseado em desigualdade e substituindo investimentos em serviços públicos de qualidade, surge uma infelicidade quase palpável, algum tipo de angústia crônica.
Essa não é uma discussão apenas urbanística, mas profundamente íntima. Trata das relações que começaram a se desenvolver quando o Brasil incorporou as injustiças de mundo desigual num deságue doloroso e sangrento. O local onde vivemos reflete esse peso histórico, tornando o usufruto da cidade privilégio de poucos, enquanto a maioria apenas a usa como meio de subsistência.
Sim, as cidades precisam de mais metrôs, de catracas livres, do fim da cultura do automóvel, de energia limpa. Mas também precisam de periferias que sejam autônomas e estruturadas para que os destinos se invertam. E para isso as cabeças precisam deixar de ser apenas operantes para se tornarem pensantes.
Referências:
VILLAÇA, Flávio. São Paulo: segregação urbana e desigualdade. Estudos Avançados,  São Paulo ,  v. 25, n. 71, Apr.  2011.
JACOBS, Jane. Morte e Vida de Grandes Cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000
ENGELS, F. Do socialismo utópico ao socialismo científico. São Paulo: Global, s. d.
* Juliana M. Dias é arquiteta, urbanista e ilustradora

domingo, 8 de setembro de 2013

Vitoria do Povo Unido: Exibimos o Video para a Comunidade do Areial e Boqueirão do Nordeste de Amaralina



















A Luta continua: Pelo fim da impunidade e contra a morte de centenas de jovens negros e pobres que morrem diariamente nos bairros populares de Salvador.

Obrigado.

Graças a corrente de solidariedade que se formou na cidade, pudemos exibir para a Comunidade, no largo do Areal / Boqueirão, localidade do Nordeste de Amaralina, o vídeo que conta a história do assassinato do Menino Joel por Policiais Militares. A Associação de Moradores do Nordeste de Amaralina e o Projeto Cine Maloca em nome da comunidade agradecem a todas as pessoas, organizações e instituições que nesses dias se mobilizaram, divulgaram amplamente na internet e no boca-a-boca, se solidarizando, se posicionando contra a ação policial que impediu no dia a exibição do documentário.

Mesmo sob as fortes chuvas, jovens, mulheres, crianças, lideranças comunitárias acompanharam atentamente através do vídeo o relato sofrido de Mestre Ninha, da Mãe de Joel e de seu irmão contrastando com a insensibilidade do comandante da Policia Militar, do advogado da PM e do Governador Wagner afirmando que não culpa os policiais....
Apesar de desta vez não termos sido incomodado, ao fim do debate que se seguiu a apresentação, várias viaturas da policia invadiram o local com armas pesadas provocando pânico nos moradores.

Após o debate, foi realizado na sede da Associação de Moradores local um debate sobre a violência policial e as ações para enfrentá-la, denunciada a sanha da especulação imobiliária capitaneada pelo atual prefeito e os próximos passos, onde além das denúncias feita por moradores e lideranças, vários representantes de entidades como o Movimento Nosso Bairro é 2 de Julho, Quilombo X, Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN), Afro-Gabinete de Articulação Instituicional e Jurídida (AGANJU), Associação Baiana de Imprensa (ABI), OAB/BA, Reaja ou será morto, Movimento Passe Livre (MPL), discutiram e fizeram propostas. O Cine Malóca foi também convidado pelas organizações para exibir o vídeo em outros locais fora do bairro.

O Cine Malóca reafirma o propósito de continuar a utilizar vídeo-documentários para conscientizar os moradores, uni-lo e mobilizá-los, preparando-os para irem para ruas e participarem das grandes lutas populares e sociais que se avizinham. Viva o povo no poder.

Nos próximos passos reexibiremos o vídeo no Boqueirão, continuaremos a exibir o vídeo em outras localidades do bairro, realizaremos uma manifestação para lembrar do garoto Joel no dia das crianças e promoveremos um grande evento simbólico no 20 de Novembro, dia da Consciência Negra.

Resistência e luta!

Contatos podem ser feitos pelo e-mail: cinemaloca@gmail.com, amna.luta@gmail.com, ou pela página do Cine Malóca no facebook “Cinemalóca”.

Salvador, 8 de setembro de 2013

Associação de Moradores do Nordeste de Amaralina               

Cine Malóca


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Ata de reunião da AMNA com Defensoria Pública e comando da PM

Está descrito nesta ata os assuntos discutidos na reunião de hoje (04/09) convocada pela Defensoria Pública para tratar sobre a proibição da exibição do documentário "Menino Joel". Abaixo o transcrito:

"Aos quatro dias do mês de setembro de 2013, às 14:00 horas, realizou-se reunião na sede da Defensoria Pública do estado da Bahia, localizada no bairro do Canela, Salvador-BA, com o fim de debater notícia de que prepostos da Polícia Militar haveria impedido a exibição do longa metragem “Menino Joel”, que trata da trágica morte deste. A reunião teve por objetivo chegar a um consenso sobre a exibição do mesmo no próximo dia 07 de setembro, no bairro do Nordeste de Amaralina. Compareceram os Defensores Públicos Maíra Calmon,  Marcos Fonseca, o Tenente Coronel Admar Fontes, representando a Polícia Militar, a Ouvidora Geral, Sra. Tânia Palma, a Sra. Valdecir Nascimento, Coordenadora executiva Odara Instituto da Mulher Negra, e a Sra. Jiane Soares, representante da Associação de Moradores local e a Sra. Maria Eunice Xavier Kalil. Iniciados os trabalhos, o Defensor Público Marcos Fonseca apresentou a problemática, que foi debatida por todos, buscando-se as soluções adequadas. Tânia Palma destacou que o local destinado à exibição do longa metragem é uma rua fechada e que o evento não causará transtornos ao tráfego. Apontou, ainda, que o mesmo filme foi exibido por duas vezes na comunidade e que não houve problemas nem reclamações. Quanto à vedação da exibição, o Tem. Coronel Admar Fontes informou que os fatos estão sendo apurados e que serão adotadas as medidas cabíveis, se necessário. Quanto à exibição a ocorrer, conforme dito acima, chegou –se a um consenso, no sentido de que, para melhor operacionalização do evento, será feita a comunicação ao competente órgão da prefeitura e ao Comando de Operações da Polícia Militar – COPPM, tudo em atenção ao comando constitucional que garante o direito de reunião pacífica, desde que não frustre outra já designada para o mesmo dia e local. Assim, realizadas as comunicações devidas, não haverá a Polícia Militar de impedir a exibição do filme documentário “Menino Joel”. Nada mais havendo a acrescentar, encerro este ato. Eu, Marcos Fonseca, abaixo subscrito, digitei.

Salvado, 04 de setembro de 2013."

Assinaram:

Maíra Calmon; Marcos Fonseca; Ten. Coronel Admar Fontes; Tânia Palma; Jiane Soares; Maricia Eunice Xavier Kalil


Comunicado da exibição de filme destinado à PM

Este comunicado foi elaborado pela Defensoria Pública junto com a Associação de Moradores do Nordeste de Amaralina durante uma reunião que ocorreu hoje (04/09) na sede da Defensoria Pública no Canela. Comunicamos publicamente ao comando da Polícia Militar a exibição do documentário "Menino Joel" no próximo sábado (07/09). Abaixo o transcrito:

"AO COMANDO DE OPERAÇÕES DA POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DA BAHIA – COPPM
A Associação de Moradores do bairro Nordeste de Amaralina, representada pela pessoa de Jiane Vieira Sorades, Registro Geral nº XXXXXXXXXX, vem, em atenção ao disposto na Constituição Federal, artigo 5º, inciso XVI, COMUNICAR QUE REALIZARÁ REUNIÃO PACÍFICA, SEM ARMAS E EM LOCAL PÚBLIC, A OCORRER NO LARGO DO AREAL, BAIRRO NORDESTE DE AMARALINA, NO DIA 07 DE SETEMBRO DE 2013.
Na ocasião, será exibido para a comunidade o longa-metragem “Menino Joel”.

Salvado, 04 de Setembro de 2013.

Assinou: Jiane Vieira Soares (Presidente)"


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Cinemalóca exibirá documentário proibido pela PM do Nordeste de Amaralina


Como uma ação simbólica de resistência, exibiremos o documentário, proibido pela PM do Nordeste de Amaralina, "Menino Joel" . O vídeo será exibido no sábado, 07/09/2013, após a exibição se fará um pequeno debate sobre segurança pública. Convocamos todos os que lutam pelos direitos humanos para apoiar  a nossa luta nesse dia. Contamos com tod@s!