quinta-feira, 25 de abril de 2013

Presidente da Nestlé diz que água deve ser privatizada


Na opinião de Peter Brabeck, a água deveria ser tratada como qualquer outro bem alimentício e ter um valor de mercado estabelecido pela lei de oferta e procura
24/04/2013
(Tradução de José Francisco Neto)
Peter Brabeck-Letmathe, um empresário austríaco que é presidente do grupo Nestle desde 2005, afirma que é necessário privatizar o fornecimento da água. Isso para que nós, como sociedade, tomemos consciência de sua importância e acabássemos com o subpreço que se produz na atualidade.
Palavras sujas que provocaram estupor, sobretudo quando se tem em conta que a Nestlé é a líder mundial na venda de água engarrafada. Um setor que representa 8% de seu capital, que em 2011 totalizaram aproximadamente 68,5 bilhões de euros.
Pero Brabeker junta essa a outras críticas para destacar que o fato de muitas pessoas terem a percepção de que a água é gratuita faz com que em várias ocasiões não lhes deem valor e a desperdicem.  Assim sustenta que os governos devem garantir que cada pessoa disponha de 5 litros de água diária para beber e outros 25 litros para sua higiene pessoal, mas que o resto do consumo teria que gerido segundo critérios empresariais.
Apesar das rejeições que sua posição provoca, faz tempo que ele defende, sem cerimônia, com entrevistas como esta que aparece no vídeo abaixo, que qualifica de extremistas as ONGs que sustentam que a água deveria ser um direito fundamental.

Em sua opinião, a água deveria ser tratada como qualquer outro bem alimentício e ter um valor de mercado, estabelecido pela lei de oferta e procura. Só desta maneira, aponta, empreenderíamos ações para limitar o consumo excessivo que se dá nesses momentos.

terça-feira, 23 de abril de 2013

ABAIXO-ASSINADO CONTRA A DESATIVAÇÃO DOS POSTOS DE SAÚDE DR.OSVALDO CALDAS CAMPOS (SANTA CRUZ) E 15º. C.S. EDUARDO ARAÚJO (VALE DAS PEDRINHAS).


Moradores e Amigos:

A Comunidade do bairro do Nordeste de Amaralina, constituído pelas localidades Chapada do Rio Vermelho, Vale das Pedrinhas, Santa Cruz e Nordeste e representado pela Associação de Moradores do Nordeste de Amaralina AMNA vem denunciar ao Público o desmonte das três unidades de saúde localizados no Bairro promovido pela Secretaria Municipal de Saúde de Salvador.

Há seis meses a Secretaria Municipal de Saúde ainda sob a gestão do então secretário, médico, empresário e dono de rede de Clínicas de Saúde, o ex-vereador Sr. Gilberto José. sob alegação de construir uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ordenou a desativação do 15o. Centro de Saúde Eduardo Araújo, no Vale das Pedrinhas, transferindo todos os profissionais de saúde para o C.S. Dr. Oswaldo de Caldas Campos, na Santa Cruz e para o 9o. CS Sabino Silva, no final de linha do Nordeste.

Até hoje o Posto do Vale das Pedrinhas (15o. CS), que já foi referencia em atendimento em Salvador está fechado, nada foi feito: não foi construída a UPA e o posto agora abandonado, deixou de atender a cerca de 40 mil habitantes moradores que residem na Chapada e Vale das Pedrinhas e que utilizavam seus serviços; os profissionais transferidos para outras unidades do bairro, em sua maioria, já não estão mais no bairro, pediram e já foram transferidos para outras unidades fora do bairro. O 9o. C S Prof. Sabino Silva, encontra-se tão sobrecarregado, que descumpre o princípio da universalidade do Sistema Unico de Saúde (SUS) e restringe  o acesso moradores do Vale, da Chapada e da Santa Cruz que precisam ser atendidos: os moradores tem que se cadastrar duas vezes (cartão - SUS e na Unidade) e para isso tem chegar as 3 horas da madrugada, enfrentar a fila e aventura, pois só são "liberadas" 30 fichas.

Como se isso não bastasse o atual Secretário Municipal de Saúde, Sr. José Antonio Rodrigues Alves, ao invés de implementar os serviços reivindicados a anos pela comunidade acaba de ordenar o fechamento do Posto da Santa Cruz (C S Dr.Oswaldo de Caldas Campos), que atualmente atende, graças ao apoio dos Agentes Comunitários, a cerca de 28 mil moradores da Santa Cruz.   O motivo alegado para o fechamento foi o alagamento recente do posto provocado pelas chuvas de quarta para quinta-feira última. Mas sabemos que à muito tempo os tecnocratas da Prefeitura insensíveis á necessidade da população vem tentando desativar os postos da Santa Cruz e do Vale. Nesses anos todos apesar de receber recursos suficientes do Governo Federal para a reforma e manutenção das unidades de saúde pouco ou quase nada foi realizado nos postos do bairro. Há mais de 10 anos os diversos Conselhos Locais de Saúde reivindicam da Secretaria Municipal de Saúde sem sucesso a reforma, ampliação, a compra de novos equipamentos, regularização do abastecimento de água, construção de caixa d´água e ampliação na cobertura, sala adequadas para o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e para os usuários, assim como mais especialidades e mais médicos e outros profissionais para o posto. Nesse período as poucas intervenções realizadas foram paliativas apenas para justificar junto aos órgãos de controle a "aplicação" dos recursos recebidos via transferência FNS/FMS. 

Para resistir a mais esse abuso estamos passando um Abaixo-assinado CONTRA A DESATIVAÇÃO e pela manutenção e reforma das Unidades de Saúde do bairro, pela construção da UPA e pela implantação de Unidades da Estratégia de Saúde da Família e NASF no bairro. Também já encaminhamos representação junto à Defensoria Pública do Estado e ao Ministério Público Estadual e, por se tratar de recursos federais do SUS, vamos representar junto ao Ministério Público Federal, ao CNS e ao CNJ.

OBS.: O abaixo assinado encontra-se em posse dos membros da Associação de Moradores do Nordeste de Amaralina, para assiná-lo basta entrar em contato com os números abaixo.

Contatos: 
(71) 3452-5978 - Francisco Santana
(71) 3116-6094 / 9938-4982 / 8829-6824 - Tânia Palma / Maria Helena Ramos Belos


Salvador, 20 de abril de 2013
Associação de Moradores do Nordeste de Amaralina
Forum Comunitário de Combate à Violência FCCV

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A Santa Cruz Agradece?


Hoje, ao acordarmos, nos deparamos com uma grande faixa na rua com a seguinte frase: “A comunidade da Santa Cruz agradece ao Dep. Uziel Bueno pelo apoio a comunidade”. Certamente todos os moradores da rua fizeram a mesma pergunta que a nossa: que apoio?


Este ilustre deputado, assumiu tem poucos meses e não deve se quer ter pisado os pés na Santa Cruz. Aliás, se ele souber onde fica o bairro, certamente é pelas noticias macabras que ele ajudou a construir e propagar. Lamentamos que agora, como deputado, Uziel Bueno se apresente como defensor da comunidade, esbanjando hipocrisia e contando com nosso esquecimento.
Diga Uziel, quais as ações em defesa da região Nordeste de Amaralina? Em quê? Onde?
De demagogia o povo está cheio. Aqui não esperamos nada de bom de vossa excelência. Pelo contrário! Ao invés de faixas, lutamos para que todos, inclusive você, que construíram uma imagem negativa de nosso povo se retratem publicamente e pelos mesmos veículos de comunicação utilizados outrora. A nossa imagem merece reparação.


Ensino Médio e técnico profissional: disputa de concepções e precariedade

Como nos últimos cinquenta anos avançamos de forma pífia no aumento quantitativo e na qualidade dos jovens que cursam o ensino médio na idade adequada, e as políticas de formação profissional para a grande massa de jovens e adultos estão na lógica da improvisação, da precarização e do adestramento
por Gaudêncio Frigotto



Um dos contrastes que se reitera historicamente em nossa sociedade é a absurda concentração de renda e propriedade na mão de uma minoria e, como consequência, uma grande massa de pobres ou miseráveis.

Como a escola e os processos formativos não são apêndices da sociedade, mas parte constituída e constituinte dela, a desigualdade social se reflete na desigualdade educacional. O estigma colonizador e escravocrata da classe dominante brasileira produziu uma burguesia que não completou, em termos clássicos, a revolução burguesa e, como tal, não é nacionalista, mas associada ao grande capital.

Trata-se de uma classe dominante que desde o Império tem um discurso retórico que apresenta a educação como uma prioridade fundamental, uma espécie de “galinha dos ovos de ouro”para resolver todas as mazelas da sociedade. Almeida de Oliveira, em discurso no Parlamento em 18 de setembro de 1882, afirmava: “Na instrução pública está o segredo da multiplicação dos pães, e o ensino restitui cento por cento o que com ele se gasta”.1

Esse discurso hoje se materializa no slogan “todos pela educação”, mas na realidade legitima propostas educacionais de interesse privado dos grupos industriais, do agronegócio e dos serviços, especialmente bancos e grande imprensa privada. Isso se efetiva pela adoção por prefeituras e estados de institutos privados para gerir os sistemas de ensino no conteúdo e no método e nos valores mercantis.

O passo mais ousado desse processo foi lançado em 31 de janeiro de 2013 com o nome sugestivo deConviva Educação, um virtual “gratuito”, desenvolvido por “investidores sociais” para apoiar a gestão das secretarias municipais de educação de todo o Brasil. Quem são esses protagonistas? Fundação Lemann, Fundação Roberto Marinho, Fundação SM, Fundação Itaú Social, Fundação Telefônica Vivo, Fundação Victor Civita, Instituto Gerdau, Instituto Natura, Instituto Razão Social, Itaú BBA e o Movimento Todos pela Educação. A barriga de aluguel para a gestão e a divulgação é a União Nacional dos Dirigentes Municipais da Educação (Undime), com o apoio do Conselho Nacional de Secretários da Educação (Consed).

Mas desde o Império são exatamente os representantes laicos e religiosos desses grupos privados que no Judiciário, no Parlamento e na burocracia do Estado, sustentados pelo monopólio da grande imprensa, que barraram ou desfiguraram as propostas que emanam do debate da sociedade e buscam afirmar o sentido republicano do direito à educação básica, pública, gratuita, universal e laica. Há mais de dois anos o Plano Educação, amplamente negociado e debatido na sociedade, está sendo protelado e desfigurado por essas forças privadas.

Dermeval Saviani, na videoconferência referida na nota 1, explicita de forma sucinta a negação histórica ao efetivo direito de educação básica pública de qualidade com a equação: filantropia + protelação + fragmentação + improvisação = precarização geral do ensino no país.

Para elucidarmos o resultado desse descaminho histórico, fixamo-nos no ensino médio e na formação técnica e profissional. Trata-se do duplo passaporte à cidadania efetiva, no plano político, social e econômico, mediante o acesso qualificado ao mundo da produção.
Cidadania política significa ter os instrumentos de leitura da realidade social que permitam ao jovem e ao adulto reconhecer seus direitos básicos, sociais e subjetivos e lhes confiram a capacidade de organização para poder fruí-los. No plano da formação profissional, a cidadania supõe a não separação desta com a educação básica. Trata-se de superar a dualidade estrutural que separa a formação geral da específica, a formação técnica da política, lógica dominante no Brasil, da Colônia aos dias atuais − uma concepção que naturaliza a desigualdade social postulando uma formação geral para os filhos da classe dominante e de adestramento técnico profissional para os filhos da classe trabalhadora.

A retórica reiterada da importância da educação “de todos pela educação” e do “convida educação” mostra-se cínica diante dos dados do Censo do Inep/MEC de 2011. O Brasil tem hoje 8.357.675 alunos matriculados no ensino médio. Apenas 1,2% no âmbito público federal, 85,9% no estadual, 1,1% no municipal e 11,8% no privado. Pode-se afirmar que no âmbito público apenas o 1,2% de alunos em escolas federais e algumas experiências estaduais, como a Escola Liberato no Rio Grande do Sul, têm padrões de qualidade internacional, com professores em tempo integral, carreira digna, tempo de pesquisa e orientação, laboratórios, biblioteca, espaço para esporte e arte etc., cujo custo econômico anual médio é de aproximadamente R$ 8 mil.

Dos 85,9% de jovens que estão nas escolas estaduais, mais de um terço o fazem à noite, com professores trabalhando em três turnos e em escolas diferentes e com salários vexatórios. O custo médio é de aproximadamente R$ 2 mil por ano, um quarto do custo federal. Uma mensalidade numa escola privada de elite corresponde ao que a sociedade brasileira está disposta a gastar com a maioria absoluta dos jovens que estão no ensino médio.
Mas o alarmante é o que revela a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad, 2011) sobre a negação do direito ao ensino médio aos jovens brasileiros. Dezoito milhões de pessoas entre 15 e 24 anos estão fora da escola e 1,8 milhão, em idade de estar no ensino médio, não o estão frequentando. Na faixa de entrar na universidade (18 a 24 anos), 16,5 milhões de jovens, ou seja, 69,1% não estudam. Pode-se concluir que o Brasil não tem de verdade ensino médio.

A metáfora do apagão educacionalque aparece no vozerio de empresários e seus representantes intelectuais e políticos, para reclamar da falta de pessoal qualificado, esconde quem o produz: a mentalidade colonizadora e escravocrata da classe dominante.Com o quadro de ensino médio apresentado, a formação profissional em nível superior ou pós-médio só pode ser medíocre.

Os dados da Pnad mostram que apenas 9% dos jovens entre 18 e 24 anos entram no curso superior. É claro que vão faltar, especialmente em algumas áreas, profissionais qualificados. Como nos últimos cinquenta anos avançamos de forma pífia no aumento quantitativo e na qualidade dos jovens que cursam o ensino médio na idade adequada, a maioria só atinge o ensino fundamental, e as políticas de formação profissional para grande massa de jovens e adultos estão na lógica da improvisação, da precarização e do adestramento.

Isso fica evidenciado no seguinte dado histórico: em 1963, no curto governo João Goulart, em razão da carência de trabalhadores qualificados, criou-se o Programa Intensivo de Preparação de Mão de Obra (Pipmo), que foi transitório e de curta duração. Veio o golpe civil-militar e esse programa durou dezenove anos.

O que é espantoso é que, cinquenta anos depois, a grande política do Estado brasileiro na formação profissional dos jovens e adultos reedita o Pipmo, com as mesmas características, mas com um volume muito maior de recursos, por meio do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e do Programa Nacional de Educação do Campo (Pronacampo).

Essas políticas, sem a base do ensino médio, constituem um castelo de areia. A meta até 2014 anunciada pelo Ministério da Educação é de 8 milhões de vagas, a maioria no Sistema S, especialmente pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Com o aporte de dinheiro público do BNDES de R$ 1,5 bilhão, pavimenta-se esse castelo, mas continuaremos negando a efetiva cidadania política, econômica, social e cultural à geração presente e futura de nossa juventude. Na expressão de Florestan Fernandes, “continuaremos a ser um Brasil gigante com pés de barro”Vale dizer, um gigante econômico com uma democracia efetiva frágil e formal e uma sociedade absurdamente desigual.

A mudança não virá da classe dominante e seus representantes no âmbito político, jurídico e religioso. Isso somente poderá mudar pela organização dos movimentos sociais, sindicatos e intelectuais; forças políticas e culturais que efetivamente lutem pelos direitos dos trabalhadores do setor público e privado e forcem as mudanças estruturais que mantêm uma sociedade que, como analisa Francisco de Oliveira, produz a “miséria e se alimenta dela”. E essa mudança só se dará quando os autodenominados “investidores sociais” anteriormente citados pagarem impostos sem a troca da tutela do Estado por benefícios fiscais e houver imposto de renda progressivo. Então poderemos ter fundos públicos para uma escola básica que inclua o ensino médio público, laico, gratuito e universal, no padrão do 1,2% da rede federal atual. Certamente será uma poderosa mediação para a cidadania política, econômica e cultural.

Gaudêncio Frigotto

Doutor em Educação – História e Sociedade (PUC-SP), professor titular de Economia Política da Educação da Universidade Federal Fluminense e professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.



Ilustração: Orlando



1. Ver Dermeval Saviani, As reformas educacionais no Brasil, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 13 out. 2012 (videoconferencia)